Existem histórias de produção artesanal que passam de pai para filho e constroem um legado familiar para além do lucro. Durante a 14ª Feira de Artesanato do Círio (FAC), esses pequenos negócios familiares mostram que o trabalho dos empreendedores, iniciado há algumas gerações, tem futuro e ganha impulso com a continuidade das novas gerações. Esses grupos desenvolvem novas peças em várias tipologias como cerâmica, miriti e balata.
Duas marcas presentes na FAC são exemplos dessa trajetória. O artesão Tarcísio Dias trabalha há cerca de 42 anos com artesanato feito de osso e chifre de búfalo, criando peças como anéis, brincos e colares. Nascido em Fortaleza, ele foi em busca de uma oportunidade de trabalho e encontrou no artesanato uma atividade que faria parte de toda a sua vida empreendedora.
“Fui fazer uma experiência, como quem diz: ‘Se der, eu fico!’. E até hoje estou aqui, não parei mais”, disse ele, ao relembrar o início de sua trajetória até a consolidação da marca Tarcísio Artesanato, no estande 22.
O pai conta que continua em busca de inovação e se sente ainda mais feliz por ver o filho seguir seus passos. “É muito significativo, viu? Porque ele não era muito motivado, mas, ao passar do tempo, viu que era possível empreender neste ramo e, tendo meu incentivo, se engajou mais no artesanato”, explicou Tarcísio.
Rômulo Vilhena criou há três anos a empresa Arte em Chifre. Empreendedor de Benevides, ele cresceu acompanhando o pai desde os oito anos de idade e sempre percebeu sua própria habilidade para trabalhar com a matéria-prima. Agora, segue os passos de seu Tarcísio na mesma linha de produção e trouxe para a feira brincos, anéis e esculturas de chifre de búfalo, além de braceletes de ouriço de castanha e peças com a semente de jarina. “Herdei essa criatividade dele, pude criar minha própria marca, desenvolver o meu design”, complementou Rômulo.

Artesanato como legado
O ceramista João Sarmento, morador do distrito de Icoaraci, em Belém, explicou que a própria sigla de sua marca, JS Cerâmica, já revela o caráter familiar do negócio: a letra J é a abreviatura de seu nome, enquanto o S está relacionado ao nome de sua esposa, Socorro. A marca também incorpora referências à Amazônia, fruto de seus estudos para desenvolver peças com características regionais e acabamento refinado.
“São 31 anos que trabalho com cerâmica. A empresa vem desde quando eu era bem jovem. Eu tinha uma lojinha em Vigia até mudar para Icoaraci”, relembra João. Com estudos para aperfeiçoar a tipologia e dar novos toques às peças, o artesão, que já participou 13 vezes da FAC, conta que a produção atual é familiar. A esposa sempre trabalhou com ele, e um dos dois filhos participa da produção.
“A importância disso é deixar um legado e que esse legado seja levado em frente, se dê continuidade”, analisa. Na edição deste ano da feira, João revelou que uma das peças de destaque foi uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré que serve como porta-incenso, além de uma luminária com da Santa, peças que ficaram perto de esgotar. Itens com acabamento esmaltado também fizeram parte das novidades apresentadas para a edição de 2026.

