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O artesanato é capaz de transformar serragem, cascas, pedaços de madeira, pedras comuns, folhas, sementes e vários outros insumos naturais da Amazônia em itens luxuosos, capazes de despertar o desejo de consumo de muita gente. De peças decorativas a joias, o valor pode escalar e conquistar públicos exigentes em relação a design, origem, técnicas e sustentabilidade. A 14ª Feira de Artesanato do Círio (FAC), em Belém, é uma vitrine de negócios que apostam no mercado dos produtos de alto valor agregado.
Um exemplo do potencial transformador do artesanato é o trabalho de Elize Lima, proprietária do ateliê de mesmo nome, no estande 48 da FAC. Na vitrine, há um anel de prata decorado. Um olhar menos atento não perceberia que uma parte considerável da joia era casca de tucumã, um fruto pequeno do qual geralmente só a polpa é aproveitada. Ou que alguns colares utilizam pedras naturais consideradas menos valiosas. Algumas peças passam do valor de quatro dígitos.
“Aqui tratamos as matérias para dar a elas vida nova. E outros insumos que utilizamos em diferentes processos para cor. É totalmente possível criar peças de alto valor agregado através de técnicas, como a que usamos no ateliê, que é a incrustação paraense de madeira. Nossas peças usam prata e prata de reuso das próprias peças. Aproveitamos tudo e valorizamos. Até mesmo refugo de cascalho de pedra lapidado ganha outra vida”, comenta Elize, mostrando uma peça em estilo arquitetônico de raio que o parta, inscrito no Luxemburgo Art Prize, em 2019.
Marcos e Aparecida, da Tok Divino Criações, no estande 14 da FAC, consideram que a feira é um excelente meio para apresentar joias de alto valor e que utilizam insumos naturais potencialmente desprezadas em outros processos. Por exemplo: a semente do açaí, que acaba virando resíduo orgânico, dá vida a colares com designs e cores complexos. Fibras e cascas de madeira, como miriti e paxiúba se unem a sementes de jarina, argila e fios de algodão. A feira deu tão certo que já fecharam negócios futuros.
“No segundo dia de FAC, já tínhamos tirado o investimento para estar aqui apresentando nossas obras, que contam com um processo muito delicado, marketing e temos até a Júlia Passos como modelo parceira para nossos catálogos. Das nossas 300 peças, incluindo as nossas de maior valor, vendemos tudo e já tivemos de repor”, disseram Marcos e Aparecida.
Com um processo sustentável de reaproveitamento de insumos considerados rejeitados e com a preocupação de não usar água, a artesã Marinete Réges da Silva já está nos 10% finais do estoque de 200 peças que trouxe para a FAC. No estande 225, a marca Afrodescendente – Arte da Terra apresentou peças decorativas feitas em serragem, biocola, resíduos de miriti, cascas de árvores e palhas.
“Meu trabalho envolve processos artesanais, tudo feito à mão com calma e paciência. Praticamente todos os meus colares de mesa, biojoias e artes decorativas mais caras eu já vendi. Produtos feitos de forma totalmente sustentável com casca de mogno, açaí, seringueira, casca de castanha, folhas, tambatajá e pedaços de madeira descartados. As peças têm alta aceitação. São delicadas, mas têm visual único e que transformam a decoração de qualquer lugar”, explica Marinete.

