A diversidade cultural e a riqueza dos recursos naturais da Amazônia estão representadas nas diferentes tipologias do artesanato na Feira de Artesanato do Círio (FAC), que segue até esta quarta-feira (14) em Belém. O evento reúne empreendedores que transformam técnicas tradicionais, matérias-primas e referências da cultura amazônica em peças que conquistam visitantes no período do Círio de Nazaré.
Entre os produtos expostos estão cuias ornamentadas, peças de cerâmica, brinquedos de miriti, esculturas de balata, biojoias, trabalhos em crochê e macramê, artigos de madeira, sementes, gemas e joias. A variedade demonstra não apenas a criatividade dos artesãos paraenses, mas também a importância do artesanato como atividade econômica e instrumento de preservação dos saberes tradicionais.
Miriti
O que começou como uma brincadeira de infância se transformou em profissão para o artesão de Abaetetuba, Ivan Teixeira Leal, da marca Artes Miriti Pará. Pela quinta vez na FAC, ele produz peças que vão de brinquedos tradicionais a trabalhos decorativos, explorando a versatilidade do miriti, matéria-prima natural bastante utilizada no artesanato paraense.
“É gratificante trabalhar com o miriti, sabendo que ele é um verdadeiro design da natureza. Quando você corta, não agride a palmeira, que continua de pé. E, quando o material é descartado, também não agride a natureza, porque se decompõe e volta a ser terra”, afirma ele.
Além de trabalhar com o material, Ivan investe no cultivo da palmeira. Ele conta que mantém um plantio de miriti em Abaetetuba, município paraense reconhecido pela tradição desse artesanato, e prepara uma nova área de cultivo. A iniciativa busca contribuir para a disponibilidade da matéria-prima e para a continuidade da atividade artesanal.

Madeira
O que muitos consideram descarte se transforma em arte pelas mãos do artesão José Antônio de Souza, que atua em Breves, na Ilha do Marajó. Com madeira reaproveitada, recolhida principalmente nas ruas e em marcenarias, ele produz peças artesanais a partir da observação de objetos e formas que despertam sua criatividade. Na FAC, o trabalho ganha destaque com obras inspiradas na religiosidade e na tradição paraense.
“A madeira é reaproveitada. Eu junto o material que encontro nas ruas e nas marcenarias, beneficio tudo e vou criando as artes. A inspiração vem do que observo. Vou vendo as coisas e imaginando o que posso fazer com aquela madeira”, explica.
Embora conte eventualmente com a ajuda de outras pessoas para desenvolver desenhos, o artesão realiza a maior parte do trabalho sozinho, desde o preparo da madeira até a criação das peças. A prática une criatividade, habilidade manual e reaproveitamento de materiais, dando nova utilidade a recursos que poderiam ser descartados.

Cerâmica
A cerâmica também ocupa lugar de destaque na produção artesanal paraense. A ancestralidade e a diversidade cultural da Amazônia são as principais inspirações do trabalho apresentado pela Barros Cerâmicas. Com mais de 20 anos de experiência, o grupo aposta na cerâmica autoral para criar peças que exploram referências africanas, indígenas e das comunidades ribeirinhas paraenses.
A produção reúne máscaras africanas, esculturas indígenas e elementos que remetem aos modos de vida e às tradições amazônicas. As obras partem de um processo de pesquisa e criação artística que busca valorizar as identidades culturais da região e ampliar as possibilidades de expressão da cerâmica.
“Nosso trabalho já tem mais de 20 anos, e o tema que trouxemos para a feira é a ancestralidade. Trabalhamos com máscaras africanas, esculturas indígenas e toda essa temática amazônica, com um estudo mais antropológico, voltado também para as nossas comunidades ribeirinhas. A ideia é valorizar essas referências”, finaliza o artesão José Miguel Costa de Barros, que representa o grupo na FAC.
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