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Ancestralidade do artesanato com buriti, o fruto sagrado da vida do povo Warao

Indígenas Warao, da Venezuela, veem no artesanato uma forma de expressar a cultura, contar histórias e homenagear o buriti
Por Da Redação
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O buriti é considerado sagrado para o povo Warao. A etnia venezuelana o chama de “fruto da vida”, já que está presente em diversos aspectos do dia a dia. Abundante tanto na Venezuela quanto no Brasil, o fruto é alimento, remédio, filtra a água e é cosmético. Da árvore e das fibras, se produz utensílios, roupas, mochilas e rede para descanso. Até uma larva que cresce no buritizeiro, chamado de “moo”, se torna uma refeição nutritiva, funcional e cultural. Essa ligação dos Warao com o buriti pode ser conhecida na Feira de Artesanato do Círio (FAC), por meio de peças carregadas de ancestralidade e história de quem deixou seu lar em busca de mudança de vida.

No espaço Mundo Amazônia da FAC, dedicado a povos originários, o trabalho de artesãos Warao é uma forma de preservar as memórias ancestrais. É lá que Gardênia Cooper, de 36 anos, encontrou uma forma de apresentar ao público a forma com a qual ela mantém o vínculo com a terra onde ainda tem familiares vivendo. O artesanato é como ela afoga a saudade e sustenta a família, com quatro filhos e netos. É o segundo ano dela e de outras do povo Warao, que hoje tem uma rede com 107 artesãos no Pará. A etnia recebe apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), que possui escritório em Belém.

“Aprendi o artesanato com a minha mãe e como aproveitar o buriti, que é uma fruta sagrada para nós. A água do buriti nós chamamos de água da vida. Foi um começo difícil quando cheguei aqui. Como muitos, comecei pedindo ajuda com uma placa na rua. Logo me senti à vontade quando percebi como aqui valorizam o artesanato, tem buriti e tomam açaí, como o povo Warao. E agora volto à FAC para trazer meu trabalho, minha cultura”, diz Gardênia, apresentando os produtos do estande e agradecendo pela parceria entre Acnur e o Sebrae no Pará.

Indígenas Warao usam miçangas e fibra de buriti para o artesanato. Foto: Selton Martins.

As miçangas, explica a artesã, têm desenhos que são retratos da vida na floresta, viagens e a transição para a vida no Brasil Na FAC, essas histórias são contadas em brincos e colares a partir de R$ 20. Do fruto sagrado dos Warao, os visitantes da feira podem encontrar artesanatos funcionais e utilitários, como cestos e outros utensílios. Uma das peças apresentadas como mais importantes é a rede de dormir ortopédica, toda feita em fibra de buriti, que tem uma resistência diferente do tecido e é considerada como benéfica para a coluna. Essa peça pode chegar a R$ 1 mil.

Ludmilla Silva, assistente de campo da Acnur, ressalta que a agência está em Belém desde 2019, quando a crise econômica, política e social da Venezuela se agravou e gerou o fluxo imigratório de refugiados da etnia Warao. O Pará foi uma porta de entrada para o Brasil. Ela pontuou que a parceria com o Sebrae/PA atende à necessidade de que o povo Warao seja incluído na sociedade brasileira, tanto economicamente, quanto socialmente.

“O artesanato faz parte da cultura indígena Warao. É algo que é passado de família para família, ou seja, é bem da ancestralidade. Além das miçangas que elas fazem das bijuterias, elas também fazem produtos com a fibra do buriti, um fruto sagrado. Os Warao são considerados o povo das águas. Num contexto de uma população que chegou aqui com uma extrema vulnerabilidade e ainda se encontra em vulnerabilidade, ter uma fonte de renda é extremamente importante para que eles possam de fato ter acesso a coisas simples como alimentação e moradia”, analisa Ludmilla.

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