Para muitas etnias indígenas, o artesanato é uma parte importante da cultura. São expressões de saberes, memórias e do elo com a natureza. Seja em grafismos presentes nas cerâmicas, seja em pinturas corporais e acessórios, tudo tem um significado. A estética chama atenção de muitas pessoas, ainda que os simbolismos nem sempre sejam conhecidos ou compreendidos por quem adquire um trabalho feito por um indígena. Apostando na economia da ancestralidade, povos originários vêm buscando, nos negócios, expressão e comunicação com diferentes públicos dispostos a conhecê-los.
Em São Félix do Xingu, no Sul do Pará, Magna Silva Peterle Yudja Juruna é a empreendedora da marca Xinguense (@xinguense_ , no Instagram). A loja reúne artesanatos de diferentes etnias do estado, do Mato Grosso e do Maranhão. A proposta é organizar a farta e diversa produção do artesanato indígena e encontrar canais de venda, garantindo que os produtos possam chegar a diferentes públicos, expressando a cultura indígena e trazendo renda aos artesãos. A empresa conta com consultoria do Sebrae no Pará e busca a abertura do mercado internacional, principalmente França, Alemanha e Estados Unidos.
“Em algumas etnias, se aprende o artesanato ainda criança, com 8 anos e às vezes até antes. É uma arte ancestral e que representa milhares de indígenas de diferentes povos. Só que nem todos conseguem vender. Eu compro e procuro o mercado. Na loja, os parentes se sentem em casa. A principal fornecedora é a etnia Kayapó, mas tenho trabalhos do Guajajara e também da minha etnia, Yudja Juruna. O grafismo do meu povo tem a ver com o caminho das águas, por conta do rio Xingu”, explica Magna.
Na 14ª Feira de Artesanato do Círio, em Belém, a loja Xinguense está inserida num espaço exclusivo, chamado Mundo Amazônia, que reúne mais de 50 empreendedores indígenas das regiões Araguaia, Baixo Amazonas, Baixo Xingu, Capim e Tapajós. Entre as etnias representadas estão Kayapó, Ka’apor, Munduruku, Parakanã, Xikrin, Yudja / Juruna e a etnia venezuelana Warao. Os Warao foram atendidos pelo Sebrae no Pará em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).
“O tema da 14ª FAC, ‘Raízes do Futuro’, traz essa reflexão para nós sobre a importância de valorizar nossa ancestralidade e povos originários. Gradativamente, estamos aumentando a presença não só de indígenas, mas também de ribeirinhos, quilombolas e outros grupos de pessoas sub representadas. É importante reconhecer de onde viemos e esta edição da feira é um divisor de águas para devolvermos a relevância, representatividade e protagonismo, que sempre foi de direito, dos povos originários”, comentou Alexandre Alves, gestor estadual do Projeto de Diversidade e Inclusão do Sebrae/PA.
Empreendimentos entregam pedaço da cultura indígena
Djokro Kayapó e Panhprati Kayapó fazem parte da cooperativa Mátkre, que reúne 5 aldeias da Terra Indígena Mekranotire, em Ourilândia do Norte. As joias, somente as mulheres podem produzir. O pente é um trabalho exclusivamente masculino. Já o cachimbo pode ser feito por qualquer pessoa. Essas e outras peças, como remos decorados, prendedores de cabelo e a borduna – uma arma usada para caça – possuem grafismos tradicionais. Uma novidade do negócio é que eles trouxeram uma espécie de glossário dos grafismos.

“Nossos grafismos são a nossa mensagem, nossa cultura. Eles estão presentes em tudo. Muitas pessoas adquirem produtos indígenas, mas não sabem o que significa. Por isso trouxemos os significados e também uma facilitadora para conversar com o público. Além das peças, fazemos a pintura corporal, com uma tinta feita de carvão e genipapo, que são do dia a dia. As tinturas vermelhas, feitas de urucum, são apenas para eventos especiais”, diz Djokro. A pintura é feita por Panhprati.
A pintura corporal com grafismos ancestrais é um dos serviços que Takaknap Kayapó trouxe com Nhakororoti Kayapó para a FAC, além dos acessórios em miçangas. Eles são de Redenção e dizem que os visitantes ficam muito curiosos. “As pessoas perguntam, querem experimentar e mostramos e explicamos o que significa cada um dos grafismos. Quando terminamos, parece que se sentem diferentes e dá para ver no rosto deles. O grafismo do jabuti, que representa força, espiritualidade e proteção da floresta, é o mais pedido. E é gostoso saber que querem conhecer nossa cultura e levar consigo na pele”, comenta.

