Cerca de 4 mil famílias da agricultura familiar foram atendidas pelo Projeto Sustenta e Inova, do Sebrae no Pará, que valoriza saberes tradicionais e estrutura negócios pautados em sustentabilidade. Financiado pela União Europeia, o trabalho foi desenvolvido ao longo de cinco anos, nas regiões do Marajó, Xingu e Capim. A meta é inserir no mercado de 20 a 30 empreendimentos, por território, até dezembro deste ano. Alguns dos resultados estão na 14ª Feira de Artesanato do Círio (FAC), que segue até esta quarta-feira (14), em Belém, com entrada franca.
Na prática, o projeto Sustenta e Inova ajudou a transformar a percepção das famílias atendidas sobre o trabalho que já desempenhavam. Pelo Sebrae/PA, os empreendedores receberam capacitações sobre gestão, plano de negócios, precificação, desenvolvimento de marca e começaram a formalizar propostas. No mapa da iniciativa, a região do Marajó teve a estruturação de negócios de artesanato, vestuário regional, biojoias, moda casa e licores. No Xingu, foram estruturados empreendimentos de chocolates e produtos de cacau de lavouras certificadas. Na região do Capim, houve trabalhos com mel e chocolates.
Analista do Sebrae/PA e coordenadora do Sustenta e Inova, Paula Viviane Couceiro, pontua que entre as propostas do projeto está a redução de impactos ambientais, estimulando o reflorestamento e a produção com práticas sustentáveis. As famílias atendidas apontam aumento da produção do faturamento. As ações já escalaram e tiveram impactos para fora do projeto, em nível municipal e estadual, com a formação de políticas públicas.
O Sebrae/PA desenvolve o projeto Sustenta e Inova em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com o Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad), e Fundação Arthur Bernardes (Funarbe). Essa parceria nasceu a partir do momento em que as instituições atendiam as famílias, mas os negócios não escalavam. Geralmente a renda vinha da venda de produtos brutos.
“Onde antes só se vendia cacau, agora temos fabricação de chocolates, por exemplo. O primeiro passo foi fazê-las se enxergarem como empreendedoras de negócios da bioeconomia e sustentáveis, com produtos que têm origem no trabalho de pessoas que cuidam da biodiversidade e se preocupam com o meio ambiente. Quando falamos de sustentabilidade, é preciso lembrar que há famílias que precisam gerar renda. Esse projeto mostra que dá para gerar negócios viáveis, sem degradar a biodiversidade”, explicou Paula, reforçando que a natureza apresenta ampla variedade de oportunidades de negócios.

Empreendedoras relatam mudança de vida
Fátima Silveira faz parte da Associação de Moda Marajoara e Artesanato (Ammar), do município de Soure. Ela conta que fez todas as capacitações ofertadas pelo Sebrae/PA e descobriu novas formas de gerir o negócio junto com outras costureiras e bordadeiras que trabalham na associação. “Antes não tinha um bom retorno financeiro e então aprendi a dar melhor acabamento aos meus produtos. Essa oportunidade de estar na FAC e mostrar meus produtos, para mim, é única. E para a feira trouxe a camisaria com grafismos ancestrais marajoaras. E temos a camisa do vaqueiro, que resgata a confecção feita pelas pessoas escravizadas, a partir de sacas de cana-de-açúcar e grafismos próprios”, disse.
Para Valdete Prado da Silva, do município de Senador José Porfírio, o Sustenta & Inova deu a ela a oportunidade de descobrir que a lavoura própria de cacau poderia ser muito mais rentável se ela não vendesse apenas as amêndoas. “Hoje, eu tenho a empresa Fruto dos Deuses e produzo agora várias coisas que aproveitam o fruto totalmente: licores, mel, polpas, nibs, geleias e, claro, chocolate. Isso transformou a minha vida, aumentou meu rendimento e estou muito feliz”, explica.
Do município de Brasil Novo, Iradir Silva Frutuoso, montou a marca Frutuoso. No começo da vida empreendedora, fazia chocolates artesanais simples e com técnicas muito caseiras, que aprendeu com a família. Após o Sustenta e Inova, desenvolveu receitas próprias de amêndoas caramelizadas e barras de chocolate de alto teor de cacau. “Uma honra estar aqui na FAC após participar de festivais apresentando a minha receita de chocolate. Minha vida mudou completamente com a minha família, com a minha chácara, meu trabalho. Em quatro dias de FAC, já quase zerei meu estoque”, relata a orgulhosa.

